Prólogo
O Chamado
Antes de Brígida, antes de Aurora, antes de Lena, havia só a noite — e uma alma que ainda não tinha nome. Ela existia no lugar entre uma coisa e outra: entre o escuro e a primeira luz, entre o silêncio e a primeira palavra. Foi ali que a lua a encontrou. Não com um chamado grandioso, de trombetas e destino. Foi mais parecido com o jeito que uma avó chama a neta para dentro quando esfria: baixinho, sem pressa, com a certeza de quem sabe que a menina vem.
A alma desceu para o mundo pela primeira vez numa floresta tão antiga que as árvores ainda lembravam de quando eram sementes. Ela caminhou entre os troncos sem medo — porque ainda não tinha aprendido o medo — e percebeu uma coisa que passaria vidas inteiras tentando não esquecer: tudo ali conversava. A raiz com a chuva. O musgo com a pedra. A folha com a luz que ainda não tinha chegado. O mundo inteiro era uma roda de vozes baixas, e bastava ter paciência de não falar nada para ouvir.
"Você vai descer muitas vezes", disse a lua, prateada e serena. "E vai esquecer, muitas vezes. Não tenha medo do esquecimento. Ele é só a parte do ciclo antes de lembrar."
A alma perguntou como saberia o caminho de volta para si mesma, se ia esquecer até o próprio nome. E a lua não respondeu com palavras. Apenas esperou. Esperou a noite inteira, que naquele tempo durava o que uma noite quisesse durar — e então, na borda do céu, nasceu uma cor que a alma nunca tinha visto: um rosa que se derramava no azul, uma luz que não era dia nem noite, mas a promessa de um no corpo do outro.
"Isto é a aurora", disse a lua. "É o meu presente para você. Toda vez que uma das suas vidas atravessar o escuro — e todas vão atravessar — a aurora estará lá do outro lado, esperando. Ela é a prova de que nenhuma noite é definitiva. Quando você a vir e sentir, sem saber por quê, que já viu aquele exato amanhecer antes: é você, se lembrando de você.
Por isso a alma tem o nome que tem. Selenya — a que pertence à lua. Da Aurora — a que sempre volta para a luz. Uma mulher, muitas vidas, um único fio: a certeza teimosa de que lembrar é possível, de que a sabedoria não se perde, apenas troca de corpo, e de que nenhuma mulher precisa atravessar o escuro sozinha.
Ela desceu. A primeira vida abriu os olhos numa aldeia cercada de névoa, num século que ainda tinha medo de mulheres que sabiam demais. O nome dela era Brígida — e é aqui que a história começa.
✶ Ficção autoral e simbólica. A cosmologia de Selenya é narrativa, não doutrina — um convite de imaginação, não uma promessa.